Blog do Sarico




Socorro! Estou "insulado"!

Posted at 10:01 PM, 2/9/2008

Se Robinson Crusoé naufragasse, hoje, numa ilha deserta, não faria muita questão de encontrar Sexta-Feira, nem precisaria de uma bola Wilson para diminuir sua solidão. Bastaria um kit contendo um laptop, um telefone via satélite e um carregador com placa solar. Coco? Peixe? Que nada! Bastaria passar uma coordenada GPS e acessar algum site de vendas on-line que entregasse suas compras. Fogueira, solidão? Impossível! Rapidamente ele encontraria nas salas de bate-papo alguém mais atraente do que Sexta-Feira.

Com o advento da Internet, as distâncias e o tempo encurtaram. Se fosse hoje, o Crusoé poderia checar suas ações na bolsa e se manter atualizado com as notícias do mundo, comunicar-se com toda a família e amigos pelo MSN, trocar e-mails e correntes de auto-ajuda, conversar via Skype, pertencer a alguma comunidade no Orkut, construir um blog para contar suas aventuras diárias... Não faltariam meios e programas para aplacar sua solidão. Mas, será mesmo?

Citei o exemplo do Crusoé para chamar sua atenção para o rápido e gradual processo de isolamento que estamos vivendo em nossas casas e empresas. Durante o expediente, se você não tiver cuidado, acabará se isolando num departamento, sala, baia ou mesa da empresa. Ao chegar em casa, você pega seu laptop e se isola em algum quarto, cômodo ou sofá, evitando qualquer contato, inclusive, com os outros moradores, sua família. Você acaba se insulando (do grego insula, ou ilha) na frente de uma tela de computador, celular ou televisão.

Para completar, inventaram o Home Office, o isolamento numa ilha que nem é empresa, nem residência. Esqueçam o continente, lazer, Sexta-Feira, Sábado, Domingo... O problema é que apesar de todos esses avanços e recursos modernos, as pessoas estão retrocedendo e cada vez mais afastadas umas das outras por paredes reais e insuladas por oceanos e abismos emocionais, transponíveis virtualmente, porém não satisfatoriamente, pela Internet.

Trata-se do paradoxo da distância. Cada vez mais próximas virtualmente, porém, cada vez mais distantes emocionalmente. Embora, a Internet tenha atraído e reaproximado virtualmente milhares de pessoas, ainda não é capaz de transmitir o calor de um abraço, o conforto de um ombro amigo, a segurança de um olhar sincero, a emoção de um beijo e a união de duas mãos dadas.

A coisa está tão grave que já tem mãe passando um e-mail ou torpedo da cozinha para seu marido, insulado no escritório, e para os filhos, insulados em seus quartos, avisando que o jantar está na mesa. Ou colegas de trabalho que conversam pelo MSN, estando suas mesas uma do lado da outra. Sem falar nas centenas de pessoas que passam dias e anos sem sair de casa, sem colocar os pés na rua.

Tanto isolamento provoca o Cada um por si e Deus por todos! Não estou nem aí, Não me perturbe! Não tenho tempo... Vejo pais que não conseguem sentar à mesa com seus filhos, nem acompanhá-los, porque cada um está em sua pequena ilha, sem nenhuma ponte para ligá-los. Não existem mais pessoas, existem usuários. Ninguém mais tem nome, somente login e senha.

Meu papel aqui é lembrar-lhes que vocês podem sair com suas esposas, maridos e filhos para o parque, praia, jardim zoológico, casa dos avós... Vocês devem se encontrar emocionalmente, e não virtualmente, com seus amigos e vizinhos para fazer churrascos, jogar dominó, baralho e conversa fora. Aliás, você conhece seu vizinho? Faz quanto tempo que você não escreve uma carta ou cartão de aniversário de próprio punho para alguém que você ama muito? Faz quanto tempo que você não dá um abraço gostoso e demorado em alguém?

Precisamos mais uma vez sair das nossas ilhas e cavernas, reunirmo-nos em torno de uma fogueira e aquecermos uns aos outros, religando nossos corpos, almas e mentes. Precisamos olhar mais para quem está ao nosso lado, ajudá-los sem pedir nada em troca, estender uma mão amiga e servir a quem precisa de nossa ajuda. Precisamos sair de nossas ilhas, ainda que seja nadando.

Enfim, não sou contra a Internet, nem quero que a desliguem. Aliás, você poderia imaginar o que aconteceria se desligássemos a Internet por uma hora? Certamente, o mundo pararia e várias pessoas teriam um colapso nervoso. Ao contrário, a Internet tem me ajudado muito a alcançar meus objetivos e vocês, leitores. Só não quero ficar alienado e achar que minha vida é um resumo de zeros e uns. Experimente abrir a janela (de sua casa e não do Windows), e olhar o mundo que está aí fora com novos olhos. Você está no palco. Faça seu show!

Viva sem Zeros e Uns!

 

Marcos Antonio de Sousa



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